sexta-feira, 26 de agosto de 2011
"Fim das Faculdades de Economia"
Samir Keedi é economista, professor universitário
Há muitos anos temos uma ideia um tanto heterodoxa quanto aos cursos de Economia. Que é extingui-los no País. Temos colocado a ideia aos nossos alunos de vez em quando. Que, a priori, estranham a colocação. E explicamos por quê. Temos notado que, dentre os grandes problemas do País, temos a falta de conhecimentos econômicos da população. Ficando essa matéria restrita a um pequeno e seleto grupo de pessoas. Não necessariamente estudados ou cultos. Esta não é condição sine qua non para isso. Esta é uma questão de perspicácia. -
De querer entender o que se passa com os juros e como eles se refletem no preço à vista. Detalhe com o qual poucos se preocupam. Infelizmente. Entendemos que alguns conhecimentos mais profundos podem mudar a forma de compra e o País. Por isso, acreditamos que o ensino da Economia deve ocorrer permanentemente. Com início já no primário ou pré-primário. Estendendo-se por toda a vida estudantil de cada pessoa. É uma matéria que deve ser considerada como, por exemplo, o ensino de língua portuguesa. Que ocorre em qualquer curso e em todas as séries ou anos.
Assim, Economia também deveria "grudar" na pessoa e não largar mais. Pode mudar o ano, mudar o curso, mas lá deverá estar a Economia. Portanto, nem deveríamos ter Faculdade de Economia. Afinal, ninguém discute, ou não deveria, que o homem (Homo sapiens) é um Homo economicus.
Desse modo, ele convive com temas econômicos o tempo todo. No trabalho, na escola, na procura de emprego, em casa, na compra de algo, no casamento, na sua dissolução (sic). Tudo é economia. E se tudo é economia, temos de ter conhecimentos econômicos. E não apenas o básico. Tem de ser um conhecimento mais profundo.
E para que isso ocorra, para que toda a população saiba o que acontece, há que estudar e saber Economia diuturnamente. Com isso, a população influiria substancialmente no desempenho econômico do País. E não jogaria tanto dinheiro fora. Cuidaria mais dele. Hoje cada brasileiro entende que isso é fatalismo. Isso é verdade. Mas o gasto desse dinheiro, duramente ganho, tem de ser mais bem administrado. Quantas vezes vemos pessoas comprar algo, gastar, por exemplo, R$ 4,95 e dar uma nota de R$ 5,00 e nem se importar com o troco, como se nada fosse. Ora, R$ 0,05 representa 1%, ou inflação de uns dois meses atualmente nas terras tupiniquins.
Quando se financia um carro, podem-se pagar dois e levar apenas um. E os consumidores nem sabem disso. Não fazem a menor ideia de quanto estão sendo esbulhados pelos altos juros da economia brasileira. Os maiores do planeta. As pessoas pensam que numa compra de automóvel financiado a juros de 1% a taxa é realmente essa, quando, em realidade, é bem maior no final das contas, pois é calculada sobre o montante total da dívida inicial, não sobre o saldo devedor que, naturalmente, vai diminuindo mês a mês, enquanto os juros continuam.
E quanto ao famoso empréstimo criado pelo governo, com desconto nos salários, na folha de pagamento, à taxa de 2% ou 3% ao mês? Explicaram ao pobre trabalhador, em especial ao aposentado, que essa taxa é bem mais baixa do que as atualmente cobradas pelos bancos - que, sabemos, são altíssimas -, e também que esse empréstimo é um grande negócio. Só não explicaram ao pobrezinho que essa taxa de 2% ao mês representa 26,82% em 12 meses. Bem mais alta que a inflação anual atual. E bem mais alta que os reajustes salariais.
O que quer dizer que, ao pegar esse empréstimo, ele estará despoupando. Ninguém teve a gentileza de lhe explicar que poderia poupar esses juros, que não são menos escorchantes do que os juros bancários normais, já que representam umas cinco vezes a inflação e os reajustes salariais. E nem que, aplicando seu rico dinheirinho, e fazendo algum em cima, poderia ter mais recursos disponíveis para uma compra à vista e com algum desconto. Que é o que ocorre nas compras à vista, com maior poder de barganha.
É preciso que todos entendam, também, que 10% ao mês, de qualquer coisa, seja inflação, aplicação financeira, etc., não significa 120% ao ano, mas 213,8%. Uma vez que é capitalizado. E isso não é difícil de entender. Algo que tenha valor 100, com mais 10% terá passado a 110. Com mais 10% passará a 121. Com mais 10% irá a 133,10 e assim por diante. Portanto, esses 100 estarão em 133,1 depois de três meses, não em 130. O que significa que, economicamente, nesse pequeno exemplo, 10 + 10 + 10 é igual 33,1%, não 30%.
Se o brasileiro se preocupasse mais com economia, e o governo fizesse sua parte na educação, ele saberia o que é superávit primário. Que é a diferença entre receitas e despesas do governo, antes do pagamento dos juros da sua dívida. E que ele está absurdamente alto, ao redor de 70, 80, 100 bilhões de reais ao ano. E que, mesmo assim, não paga nem metade dos juros da dívida interna - que já está se tornando, como no exemplo de alguns países europeus, impagável. Os juros sobre a dívida interna, neste ano de 2011, serão de 240 bilhões de reais. Enquanto paga este absurdo valor em juros, devido à mais alta taxa de juros do mundo, investe na população brasileira apenas 70 bilhões de reais por ano.
Portanto, nem é preciso mais delongas para mostrar o que seria possível mudar no País se todos, ou a maioria dos brasileiros, entendessem mais de economia. Em contraposição aos poucos milhares que temos hoje. O Brasil seria bem outro. Portanto, Economia já, em todos os cursos e escolas e para todas as idades. Não é sem educação e sem conhecimentos econômicos que se faz um país forte e se destaca no cenário mundial.
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26/08/11
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