Mesmo
que a taxa de câmbio permaneça favorável, na casa dos atuais R$ 2,50,
não se deve esperar reação relevante das exportações brasileiras em
2015, na avaliação de economistas consultados pelo Brasil Econômico . “O
Brasil deu as costas para o mercado internacional de manufaturados há
muito tempo. Perdemos competitividade. Não recuperaremos esse espaço
perdido em um estalar de dedos”, diz o professor da PUC-SP, Antônio
Correia de Lacerda. “A queda dos preços das commodities, onde o Brasil
tem presença forte, não ajuda”, acrescenta o economista Júlio Gomes de
Almeida, ex-secretário de Política Econômica e professor da Unicamp.
Nenhum deles acredita na previsão do mercado financeiro, que aposta em
um já modesto saldo de US$ 7,24 bilhões em 2015, conforme o Boletim
Focus, divulgado pelo Banco Central. Ela estaria otimista. “Acredito que
terminemos o ano que vem com um saldo entre US$ 4 bilhões e US$ 5
bilhões”, diz Lacerda. Para Júlio Gomes de Almeida, o saldo deverá ficar
entre US$ 5 bilhões e US$ 7 bilhões. Com balança comercial modesta,
lembra Lacerda, não devem ser depositadas grandes esperanças no comércio
externo como alavanca do crescimento. José Ricardo Bernardo, economista
e diretor da GBI Consultoria Internacional, também aposta em um saldo
inferior às previsões do mercado, mas por um motivo preliminar:
“Parece-me que a aposta do governo continua sendo manter a inflação sob
controle. Uma taxa de câmbio de R$ 2,50, ao longo de 2015, poderia
colocar os índices inflacionários acima da meta. Seria um cenário muito
ruim para o governo”, diz ele. Segundo Bernardo, o governo tenderá a
buscar um patamar mais baixo para o câmbio, o que reduzirá o estimulo às
exportações. Ele lembra que o movimento do Banco Central, ao retomar a
elevação das taxas de juro, teve entre seus objetivos o de tentar evitar
a propagação dos efeitos da desvalorização cambial recente sobre os
índices de preços. Bernardo vê no momento um movimento especulativo de
curto prazo alimentado pela indefinição da futura equipe econômica da
presidenta Dilma Rousseff. Júlio Gomes de Almeida diz que a capacidade
de reação do setor exportador ao câmbio está cada vez menor. Ainda que a
taxa se estabilizasse no atual patamar, dificilmente uma reação
importante seria observada antes de dois ou três anos. “Se fosse há 15
anos, eu diria que sem dúvida uma melhora no câmbio permitiria uma
reação rápida (em um ano ou menos) do setor exportador. Há dez anos, eu
diria: possivelmente. Hoje, eu digo: é muito difícil”. E para a reação
se concretizar no médio prazo, o câmbio favorável não basta mais.
Precisaria, segundo ele, estar acompanhado de uma política industrial
dirigida ao setor exportador e em uma melhora na infraestrutura, para
reduzir custos. “O governo teria que caprichar mais em outras políticas.
Por exemplo, dirigir uma parte do esforço de desonerações tributárias
ao setor exportador”, avalia. Há outros obstáculos pelo lado das
importações, que também ficaram menos sensíveis ao câmbio. “A indústria
de bens de capital e bens intermediários é muito mais dependente hoje de
insumos e equipamentos importados”, afirma Júlio Gomes de Almeida.
Brasil Econômico
05/11/2014
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