segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Eleições podem alterar rumos do Mercosul


Quem percorre a avenida que margeia o Rio da Prata, em Montevidéu, dificilmente deixa de notar um majestoso edifício, ao lado do cassino do parque Rodó. No passado ali funcionava um hotel. Hoje é a sede do Mercosul. A julgar pela agenda do local, é bem provável que o movimento dos que ali se hospedavam para aproveitar a praia em frente, no início do século XX, fosse bem mais intenso do que hoje. Esporádicas excursões de estudantes do Brasil, Argentina, Paraguai e do próprio Uruguai, países que criaram o Mercado Comum do Sul, há 23 anos, ajudam a dar um pouco de vida ao local. Fora isso, o último grande acontecimento no antigo hotel foi a cúpula dos governantes do Mercosul, em julho de 2013. A quietude no edifício reflete o momento político do bloco, marcado por indefinições. Os brasileiros começam a eleger seu novo presidente no domingo e os uruguaios em outubro. Ainda falta um ano para os argentinos escolherem o próximo presidente, mas a fragilidade político-econômica do país antecipa discussões e torna as relações externas mais difíceis. Na Argentina, analistas temem que o país fique isolado se o Brasil buscar seus próprios acordos comerciais. Para eles, essa possibilidade aumenta no caso de a candidata do PSB vencer a eleição. "Marina Silva manifestou em seu programa de governo que o Mercosul tem que mudar para converter-se em ferramenta de integração com o mundo. Ela demonstra atitude mais firme em relação à possibilidade de o Brasil agir unilateralmente. É diferente da complacência de Dilma [Rousseff]", destaca o ex-secretário da Indústria, Dante Sica, que dirige a Abeceb, empresa de consultoria de Buenos Aires. Caso o Brasil abra mais a economia já no primeiro ano do novo governo, a Argentina ficará isolada. Pelo menos durante 2015. "Enquanto estiver no poder, Cristina Kirchner protestará contra qualquer abertura econômica", diz Patricio Carmody, especialista em relações internacionais. Carmody é autor do livro "Política externa no fim do mundo", que acaba de ser lançado na Argentina e que compara as relações exteriores de Brasil, Argentina e Chile. Um dos capítulos destaca que não é de hoje que o choque de momentos econômicos distintos enfraquece as relações regionais. Em 1999, o real sofreu forte desvalorização, o que provocou súbita perda de competitividade da Argentina, que na época adotava a paridade (um peso era igual a um dólar). Para Comody, mesmo no governo Lula, época de relações cordiais, "o Brasil afastou-se da Argentina ao ganhar projeção, como potência, no bloco Brics". Se a resistência argentina foi um dos motivos para a região não ter chegado a um acordo com a União Europeia, o sucessor de Cristina Kirchner terá, diz Comody, que reagir para acompanhar o Brasil. Cristina não pode concorrer à reeleição porque no fim de 2015 cumprirá o segundo mandato consecutivo. Sejam quais forem os próximos governantes, o Mercosul terá que "ser repensado", diz o economista e doutor em ciência política Sérgio Berensztein. "O Mercosul não funciona bem e os governos sabem disso", destaca. Para ele, por questões estratégicas e globais tanto Argentina como Brasil registraram crescimento no setor primário, mas não conseguiram expandir a atividade industrial e perderam competitividade nessa área. "É preciso ver como ficam os países menores, Uruguai e Paraguai, resolver as dificuldades para incorporar a Venezuela no bloco, e buscar maior integração com Ásia e Pacífico. A Ásia é uma realidade que não existia quando o Mercosul surgiu", diz o analista argentino. No Brasil, o empresariado se mobiliza no mesmo sentido. A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) entregou aos candidatos que concorrem à eleição presidencial uma proposta de revisão do modelo do Mercosul que permita aos países membros celebrar acordos de livre comércio em condições diferenciadas. Um exemplo, diz o diretor de desenvolvimento da CNI, Carlos Abijaodi, seria fixar prazos diferenciados de desgravação. "O Brasil ficou muito tempo isolado", destaca. O presidente da AEB, José Augusto de Castro, também é favorável à flexibilização. "Não apenas para prazos diferenciados como para permitir que os sócios possam fazer acordos isoladamente", diz. "É preciso retirar o engessamento atual do Mercosul." Com a atual situação da Argentina, diz Castro, a discussão tornou-se mais urgente. "Antes muitos setores ficavam acomodados com o mercado argentino", lembra. Mas com o aprofundamento da crise no país vizinho, diz, tornou-se importante procurar novos mercados, principalmente para produtos manufaturados. "Além disso, a crise faz a Argentina ter uma preocupação adicional com o crescimento das importações." Com o país ainda mais isolado do mercado mundial por conta do "default", o governo argentino restringe importações para segurar as reservas em moeda estrangeira. O documento da CNI destaca a Argentina como ambiente pouco propício ao desenvolvimento do comércio e aos investimentos por conta de barreiras comerciais. Para os líderes brasileiros, a questão econômica foi esquecida. Castro diz que nas últimas reuniões do bloco a discussão restringiu-se a questões como a espionagem do governo americano e os ataques de Israel na Faixa de Gaza. Além disso, destaca a CNI, são crescentes o pedidos da Argentina e do Brasil para criar exceções à Tarifa Externa Comum (TEC), o que aumenta as imperfeições do modelo. Em artigo divulgado à imprensa no fim de semana, Dante Sica, da Abeceb, prevê que no futuro poderá haver uma desarticulação da TEC, o que provocaria a necessidade de os produtos do Mercosul competirem com os de países fora do bloco. Para ele, as consequências talvez sejam as mesmas caso Dilma ganhe a eleição. "A diferença numa mudança de governo seria apenas antecipar a tomada de decisões, o que exigiria da Argentina agregar a questão do comércio exterior na agenda e decidir se acompanha o Brasil em novos acordos internacionais", destaca. Para o economista, as eleições em si não incidirão sobre a questão estrutural. "Já faz anos que a Argentina tem perdido relevância econômica, comercial e mesmo política para o Brasil. Por trás do ruído das disputas eleitorais em ambos os países, poderá começar a manifestar-se uma forma mais independente na tomada de decisões na região", diz. No Uruguai, mercado menor, os empresários acompanham atentamente a mobilização do setor privado no Brasil por acreditar que essas lideranças têm mais força para provocar mudanças. "Somos pequenos", destaca Isidoro Hodara, vice-presidente da Zonamerica, a maior zona franca de serviços do Uruguai. Hodara, também professor de comércio internacional da universidade Ort, diz que quando foi criado, o Mercosul parecia um trampolim para negociar com o resto do mundo. "Com o tempo, transformou-se numa trava", diz. Para os uruguaios, não ajuda a sede do Mercosul ser em Montevidéu porque no jogo comercial eles se sentem afastados. "É como se tivéssemos comprado ingresso para entrar no estádio de futebol, mas a pessoa à nossa frente se levanta e não nos deixa ver a partida. Dante Sica recomenda uma análise do formato que o Mercosul passará a ter: o que acontecerá com os investimentos, com o setor automotivo e outros que produzem em escala regional, e quais cadeias produtivas serão viáveis na região. Se uma metamorfose do bloco funcionar, talvez o edifício ao lado do Parque Rodó deixe de ser um símbolo esquecido.
Valor Econômico
29/09/2014

Um comentário:

  1. Tenho lido muitas notícias sobre as relações MercosulxBrasilxMundo e acredito, como todos os jornalistas, que as relações entre Brasil e Mercosul estão extremamente desgastadas. O nosso país precisa abrir a porteira e olhar o que tem do outro lado, e parar de se preocupar em manter os laços com os nossos vizinhos endividados. Claro que continuar conversando com a América do Sul é importante, mas chegou a hora de perceber que existe uma Ásia cheia de oportunidades para fazer negócios e uma Europa ressurgindo das crises!

    Núbia Kalichak/FATEC ZL/4°comex/manhã/sala 108

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